Como é cobrir as Olimpíadas

Agora que chegou ao fim, posso dizer: não vejo a hora de voltar para o Brasil. Foram 23 dias de ao menos 15 horas diárias de trabalho. Dormi pouco e comi muito mal –não dava tempo!

Vivi experiências inesquecíveis –boa parte delas talvez eu só me dê conta daqui dias ou meses, tamanho o furacão que se envolve quem tem de trabalhar com as Olimpíadas. São competições e matérias diárias, uma coisa se sobrepõe à outra muito rapidamente. Será preciso um tempo para que eu consiga fazer um balanço exato do que foi estar em Atenas, do que representou para mim pessoal e profissionalmente... Como dizem os medalhistas olímpicos, ainda não caiu a ficha.

Nesta cobertura, enfrentei uma dificuldade enorme: não tive credencial. Isso quer dizer que: gastei perto de mil euros (quase R$ 4 mil) em ingressos, não tive acesso às entrevistas com os atletas após as competições –nem à Vila Olímpica-, não pude trabalhar no centro de imprensa principal, onde muitas informações olímpicas aparecem e não pude entrar com o computador nos ginásios –o que me fez adotar uma louca ciranda de cyber-cafés, laptop, sala de imprensa "B" –criada pela Prefeitura de Atenas para jornalistas não-credenciados.

Além disso, não me hospedei em um hotel, como é praxe nesse tipo de cobertura –credenciado, ficaria em um dos locais de hospedagem oficial de jornalistas, em localização boa e a custo baixo. Por ter esperado pela credencial até o fim, a poucas semanas dos Jogos, não havia mais hotel disponível. Me hospedei na casa de um grego, com três estrangeiros. Nada de serviço de quarto, conforto e telefone. E mais: fiquei hospedado na região de Glyfada, no sul de Atenas, bem longe da maioria das competições.

Por isso, talvez minha maior dificuldade aqui tenha sido o transporte. Para cada local que tinha de ir, era no mínimo uma hora de deslocamento. Sempre tendo de raciocinar: não posso levar meu laptop neste evento, naquele posso levar, se não estiver com meu computador não tenho como descarregar fotos. Enfim, isso atrapalhou.

Sem me fazer de coitado: não ter a credencial me fez vivenciar as coisas do lado de fora, como acontece com os torcedores. Quando credenciado, o jornalista não pega filas, não tem porque perder tempo com cambistas, não percebe uma série de problemas que afetam a pessoa comum que assiste às Olimpíadas. Tive essa experiência.

Outra coisa: normalmente, o que os atletas têm a dizer não é novidade. Jornalista esportivo há cinco anos (não é muito, mas também não é pouco), sei como boa parte dos atletas reagem. Pelas suas expressões, é possível saber o que estão sentindo. Como muitos deles também não sabem externar bem por meio de palavras os seus sentimentos, nem sempre ouvi-los garante reportagens. E um jornalista que não acompanha a trajetória de muitos deles pode deixar-se enganar por desculpas que se repetem ou discursos pré-fabricados. Claro que o ideal é estar bem preparado e, ouvindo o que têm a dizer, fazer reportagens completas. Mas isso nem sempre foi possível aqui: só quando pude encontrá-los por telefone ou driblar a segurança dos locais de competição e entrevistar os atletas mesmo sem estar autorizado –isso não foi muito comum.

Deixando de lado o lado profissional, minha experiência aqui, pelo que posso apreender desde já, foi muito importante para o lado pessoal também. Conversar com pessoas de partes tão diferentes do mundo não é algo que se faz todos os dias. E, cada vez mais sinto isso, todos somos muito iguais. Temos algumas diferençazinhas culturais –às vezes verdadeiros abismos-, mas, nos sentimentos, somos todos muito parecidos. A frase é batida, mas é incrivelmente real. Outra coisa: a globalização, cuja faceta que mais percebi aqui é a da evolução das comunicações, faz com que nossas referências sejam muito parecidas. Os amigos europeus que fiz aqui riem das mesmas coisas que nós. Têm os mesmos tipos de problemas e dilemas. Pensam muito parecido com a gente. De uma forma até difícil de explicar, é preciso vivenciar...

Poderia escrever um livro com tudo o que vivi –mas não será agora e muito menos neste espaço. Finalizando, portanto, gostaria de agradecer àqueles que leram esse blog –e também a parte mais séria do meu trabalho, as matérias que diariamente escrevi. E pedir desculpas por não ter respondido nenhuma mensagem. Não daria tempo. E, se fosse respondê-las, não poderia deixar uma ou outra de lado...


Postado por Murilo Garavello às 18h18
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Personagem olímpico - Wolfgang Rader (Alemanha)

O auditor de 36 anos dá uma lição de amor à Olimpíada. Deixou a mulher e duas filhas pequenas em sua cidade na Alemanha para vir à Olimpíada como voluntário, tendo de pagar todas as suas contas em Atenas. Antes, viajou 150 quilômetros para Munique apenas para ver a passagem da tocha olímpica.

Em Atenas, foi funcionário dedicado do ginásio olímpico de boxe -esporte que ele detesta. Tanto que se tornou um dos poucos premiados com ingresso grátis para um dos dias da final do atletismo. Wolfgang mostrou-me, orgulhoso, a carta que recebeu de seu chefe aqui na Grécia, agradecendo-o pelo trabalho.

O alemão recusou uma proposta de 150 euros por um dos três uniformes que, como todo voluntário, recebeu no primeiro dia de Olimpíadas. Levará de volta à Alemanha como troféu um pin especial, dado apenas aos funcionários do ginásio de boxe -ele comprou em Atenas uma redoma de vidro para guardar a "relíquia".

Exagero? Talvez porque a Olimpíada seja meu objeto de trabalho, algo que por mais nobre e inesquecível que seja, acaba banalizado pelas obrigações profissionais...


Postado por Murilo Garavello às 18h48
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Brasil, mais profissional, com menos medalhas

Vou meter minha colher em um assunto que deve estar bastante em discussão no Brasil: nossos atletas são verdadeiros heróis apenas por estarem na Olimpíada? Ou devem ser cobrados pelo desempenho abaixo do esperado?

Quero fazer um registro, a meu ver, importante: de Sydney-2000 para cá, aumentou demais o número de atletas que têm boas condições de treinamento e recebem mais do que 90% dos brasileiros comuns para praticar suas modalidades. Em boa parte dos casos, ganham dinheiro público. Isso mesmo: para quem nunca ouviu falar, existe a Lei Piva, que destina desde 2002 uma parte da arrecadação das loterias para o esporte olímpico. É dinheiro que o governo deixa de colocar na saúde ou na educação para aplicar no esporte.

Com isso, nossos atletas olímpicos -é importante fazer a distinção porque a maior parte dos não-olímpicos continuam tendo as folclóricas péssimas condições de treinamento e estrutura-, em sua maioria, puderam se preparar para Atenas-2004 melhor do que para todas as Olimpíadas anteriores. Com exceções, como o futebol feminino, não é mais totalmente verdadeira a imagem do esportista olímpico que faz bicos para pagar suas contas e tem pouco intercâmbio internacional. Repito: hoje, a maior parte dos atletas que vieram a Atenas, se estão longe de serem ricos, têm, sim, como sobreviver do esporte.

Ainda não chegamos -e estamos muito longe- de poder proporcionar condições ideais para todos. Bem como ainda estamos a décadas de mercermos o rótulo de potência olímpica. Mas tem muito atleta mimado que, ao fracassar, inventa desculpas, se cobra pouco, pensa que ao estar na Olimpíada já cumpriu sua obrigação. Muitos deles têm de aprender a enfrentar as cobranças que qualquer profissional remunerado recebe. O esporte é complicado, muitas vezes se perde porque o outro foi melhor. Em Atenas, entretanto, houve muita gente que teve desempenho muito pior do que o habitual, abaixo do seu potencial. E, em vez de assumir isso, buscar os motivos e aprender com os erros, prefere se esconder atrás de uma imagem que já não é mais verdadeira: a ladainha que existe ainda "esporte amador".


Postado por Murilo Garavello às 18h41
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E Atenas não deu rebu...

Não eram pequenos os temores dois meses antes desta Olimpíada. Terrorismo, trânsito, obras atrasadas, falta de infra-estrutura... O atraso nos preparativos fez inclusive o COI eliminar cidades que não sejam metrópoles semi-prontas da disputa por 2012.

No fim das contas, os Jogos foram realizados sem maiores problemas. O trânsito caótico foi efetivamente melhorado por inúmeras obras, como ampliação do metrô, adoção de uma faixa de tráfego exclusiva para a Olimpíada nas grandes avenidas, recriação do bonde, construção de novas avenidas. Claro que o fato de agosto ser um mês de férias para os gregos ajudou -muitos, como acontece em todos os anos, viajaram para as ilhas. Entretanto, é fato que, principalmente para quem está acostumado com São Paulo, não houve grandes congestionamentos.

Atentados terroristas ou incidentes de grande porte não ocorreram. As arenas de competição -algumas muito afastadas da cidade- funcionaram bem, não houve notícia de problemas para os atletas. Não houve apagão nem falta de nenhum produto essencial.

Os preços que, temia-se, explodiriam, acabaram sendo os mesmos ou inferiores aos das grandes cidades européias. Só os hotéis eram caros demais. O resto, nada do outro mundo -claro, não dá nem para comparar com o Brasil, pobres que somos desde que o real adquiriu seu verdadeiro valor, há cinco anos.

Problemas crônicos nas cidades brasileiras, os assaltos aconteceram em número ínfimo -um jornalista brasileiro teve dinheiro e máquina fotográfica roubados, é verdade, mas para quem está acostumado ao Rio de Janeiro ou a São Paulo, foi uma tranqüilidade absurda andar pelas ruas de Atenas, a qualquer hora do dia ou da noite.

De negativo, o baixo público. Como já escrevi neste espaço antes, foi deprimente ver muitos jogos decisivos serem disputados com pouquíssima gente vendo. E não me refiro à decisão do badminton ou do tiro com arco: nas finais da ginástica artística e do futebol, por exemplo, sobraram muitos lugares. Além de atletismo e natação, que tiveram bons públicos, apenas competições de que a Grécia participou ficaram lotados. O atleta que treina quatro anos para o evento máximo de sua carreira, certamente, sentiu-se desestimulado com o clima de fim de festa. Muitos vencedores tiveram a glória esvaziada...

Mas, em um balanço geral, Atenas foi notícia muito mais pelas competições olímpicas do que por problemas externos. E isso é o mais importante.


Postado por Murilo Garavello às 18h35
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Personagem olímpico - Galvão Bueno (Brasil)

Grande competição esportiva para os brasileiros é sinônimo de Galvão Bueno, não é mesmo? Uns gostam, outros reclamam... Eu, aqui em Atenas, fico pensando o que ele anda dizendo sobre essa Olimpíada -até posso imaginar, pelo que conheço. Mas foram tantas competições que acompanhei sem ouvir a voz do Galvão que, quando o vi hoje, pouco antes do jogo de vôlei, com o Tande, resolvi tirar uma foto... Aposto que o narrador falou muito bem da vitória do Brasil, sem poupar adjetivos. Ou não?


Postado por Murilo Garavello às 19h51
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As cores são as mesmas

Sempre com uma cerveja na mão, esse figura sueco tava torcendo para a seleção de seu país -que perdeu da Alemanha- na disputa do bronze do futebol feminino. Depois, aconteceu o jogo dramático que nos daria a medalha de ouro mais valiosa de nossa história, mas a trave e a juíza -ruim demais!- não deixaram. O sueco, claro, torceu para o Brasil. Qualquer um em Atenas faz o mesmo, ou seja, torcer para o rival quando os ianques estão em cena...

 


Postado por Murilo Garavello às 19h42
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Furo: futebol feminino também tem maria-chuteira

Peço desculpas por não ter conseguido uma foto melhor...não sou fotógrafo, vale lembrar... mas aposto que vocês vão concordar que eu tinha que publicá-la neste blog... Essa mina da foto tava filmando a final contra o Brasil no futebol feminino para uma, digamos, "amiga" que faz parte da seleção dos EUA. Depois da cerimônia de premiação, a jogadora em questão subiu as arquibancadas para dar um abraço e um beijo na boca dessa moça da foto...como elas não nasceram na Rússia, será que é maldade minha supor que são namoradas?


Postado por Murilo Garavello às 19h37
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Gregos bem style

Os jovens gregos adoram cuidar do visual. E têm um penteado bastante típico: com gel, deixam o cabelo espetado para trás. Sair na rua em Atenas é certeza de ver vários caras desse naipe. Alguns, mais arrojados, além do estilo porco-espinho, adotam também um rabicó (mullet, para os íntimos). E o tingem de loiro, muitas vezes.

Outra característica normal dos playboys gregos -não tenho fotos para isso porque tenho mais o que fazer do que ficar correndo atrás de homem para fazer um book, perdoem-me leitoras- é usar camisa agarradinha para exibir os corpos malhados. Resumo: aqui, mais do que no Brasil, a vaidade está muito em voga: imagino quanto tempo esses caras gastam na frente do espelho.


Postado por Murilo Garavello às 19h32
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Um ginásio vazio e deprimente

Foi deprimente ver as semifinais do basquete feminino. Não, não apenas porque o Brasil apanhou da Austrália e, provavelmente vai ficar sem medalhas (posso queimar minha língua, tomara!), mas não boto fé em uma vitória sobre a Rússia, pelo que vi até aqui.

Foi deprimente também porque não havia pouco mais de mil pessoas em um estádio com capacidade para no mínimo dez vezes mais. Pior, quem estava lá praticamente não abriu a boca.

Eu estava no alto da arquibancada e conseguia ouvir os berros do nosso técnico, Barbosa, com as jogadoras. Acho que nem final da categoria cadete do Campeonato Paulista tinha menos clima de decisão... E valia medalha olímpica!


Postado por Murilo Garavello às 19h26
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